perverso

 

< volta Simplezinho

Era uma vez
Uma menina
Que tinha medo
E aprendeu que o que importava
Era convencer as pessoas
De que medo não havia

Virou atriz, a menina
Grande estrela que, ninguém sabe
Pregada no firmamento
Morre de medo de altura.

dez/87

 

M/aguar-se

Desagüei num choro solto
Desatado
Coração desatinado
Desabalou num chorado

Tudo virando poça
Chumbo virando atoleiro
E a escultura insossa
Ganhando tempero

O olho minando sal raro
Abissal, medicinal
Que ensopa as feridas
Fazendo reparo

E o choro verdadeiro
Enlameando a secura
Estéril do canteiro
Fecundando a criatura

Só quando a lágrima verte
Quando se deixa cair
O coração jardineiro
Se diverte

Só a tristeza
Vivida
Possibilita
Sorrir.

mar/88

< volta Pura Natura

A flor mentirosa
Atrai a mosca
Seduz a mosca
Põe mel na boca da mosca
Alisa os pêlos da mosca
Faz um colo para a mosca
A mosca apaixonada adormece
Se esquece da flor
Flor silenciosamente fechada
Quedando as pétalas delicada
Mosca sem saída
Flor venenosa, fingida
Esfomeada
Fim de vida para a mosca
Digerida pela corola amarela
Flor aberta, singela
Engatilhada
E ninguém se apercebe de nada.

ago/88

 

No quarto I

O céu é azul sem nuvens
E paira sobre os telhados
Há homens vivendo nas casas
E algumas casas ainda têm quintal
As crianças explodem tanques de guerra
E a televisão toma conta dos recém-nascidos
Alguns morrem nos pronto-socorros
Outros tentam nascer nas maternidades
O ônibus continua cheio
Os bêbados ainda cambaleiam
As ruas ficaram estreitas
As calçadas foram extintas
O sorriso ainda vale a pena
O jornal matou mais gente
Mas o ar ainda tem cheiro bom
No céu há também aviões e passarinhos
Escrevem-se poemas
E eu
Deitada na cama
Enlouqueço.

set/88

< volta  

No quarto II

A noite abraçou a casa
E o mundo fez barulho lá fora
A casa riu
Do vento que descabelou a goiabeira
As nuvens taparam os olhos da lua
Então um raio correu pelos céus
Trazendo o banho das hortaliças
Mais algumas luzes foram dormir
E outros corações pararam
Uma risada veio montada no ar
E se espatifou na minha janela
A luz corre pelo meu quarto
Beijando tudo
Eu e minha cama
Fazemos o poema
A caneta disse chega
E cuspiu na folha
Pedia ela mais duas palavras
Ela cedeu
Boa noite.

set/88