vestido azul

 

< volta Camilo Bastos de Oliveira, funcionário dos Correios e Telégrafos. Dono de modesta sala na agência central, mas com privilegiada vista para o Vale do Anhangabaú por sobre o qual o Viaduto do Chá se debruça feito um arco-íris de concreto. Mesmo este conturbado ano de 1968 não teve a força de macular a harmonia urbana, posta feito cartão-postal contra a janela do senhor Camilo. Homem reto e pálido, embalado em seu terno cinza de poliéster e tendo os fios de cabelos firmemente unidos por espessa camada de gumex, o Sr Camilo não é daqueles que carregam poeira no bico do sapato. Sobre a sua mesa, pilhas de papéis obsessivamente alinhados, uma caneta tinteiro, a placa onde lê-se "Gerente", o jornal do dia e um porta retrato de cobre bem polido com a foto de Ana Célia em seu vestido azul.

Dezesseis anos completos, Ana Célia, filha única. O vestido azul de organza foi presente do pai para o dia da Coroação de Nossa Senhora . Doce, branca, meiga, pequena, e não é que parece mesmo um anjo? Às vezes ia com Camilo e a mãe às festas dos Correios. Ultimamente andava sumida. Desde aquele evento desagradável quando o tal de Pachequinho, carteiro reles, rapaz atrevido e metido a cantar músicas românticas ao violão, deu de lançar olhares quentes para a menina. Foi tal o incômodo de Camilo, que após minutos de palidez extrema, esborrachou-se no chão. Desmaiado. O médico disse a Dona Flora que o marido sofria dos nervos e receitou descanso. A família nunca mais freqüentou as festas dos Correios e o tal carteiro Pachequinho acabou transferido da Agência Central.

Mas não eram os nervos que torturavam o Sr. Camilo. Dona Flora sabia. Desde que a menina nasceu, ele não era mais o mesmo. Foi se afastando. Começou a reclamar à noite se os seus pés se encostavam. Implicava com tudo: o ponto do arroz, o perfume de lavanda, barulho da máquina de costura. Um dia comprou um colchão de solteiro e informou que passaria a dormir no quarto da menina. Nunca mais encostou um dedo em Dona Flora nem em ninguém. Só tinha olhos para Ana Célia que crescia. Ele escolhia os vestidos, os sapatinhos, as fitas do cabelo, muito discretamente, sinalizando com o olhar enquanto Dona Flora examinava as peças no armarinho. Antes de ir para os Correios, deixava a menina na escola, e à tarde ligava várias vezes só para ouvi-la tagarelar as futilidades da infância. E então ela cresceu, ganhou cintura. Começou a ter os seus segredos rabiscados nas últimas páginas do caderno e quis sentar-se em banco separado na hora da missa. Trocava olhares cúmplices com as amigas e do nada tirava sorrisinhos nervosos. Um dia o telefone tocou, era um tal de José, pra ela. Camilo não suportou, bateu o telefone, arranjou uma úlcera e foi parar no Hospital das Clínicas. Passou 3 dias internado. Ela trancou-se no quarto e não quis ir visitá-lo com a mãe. Camilo voltou para casa mais do que abatido, mortificado, e Ana Célia compadeceu-se. Naquela semana, ela segurou-lhe a mão todas as noites até que ele conseguisse definitivamente conciliar o sono.

Dona Flora estava gorda e velha. Ao lado de Camilo, mais parecia sua mãe. Tudo via e calava. O silêncio a havia engordado. Engolia as palavras com porções generosas de sorvete, bolo de nozes, ambrosias... As lanchonetes do centro da cidade eram seu alvo predileto. Às vezes, quando Camilo permitia, levava Ana Célia para passear nas proximidades dos Correios, puro pretexto para se entupir de comida. Na rua Libero Badaró, comer sanduíche de espinafre ou tomar suco com cachorro quente no Califórnia, era o passeio preferido. Foi num dia desses, um 1º de abril, que, ao cruzar o Viaduto do Chá em direção ao Teatro Municipal, foram colhidas por uma imensa passeata de estudantes. Outro protesto contra o regime militar. Dona Flora recuou instintivamente mas Ana Célia, fascinada pela multidão e pelos gritos de liberdade, largou a mão da mãe e sumiu. Sorte estarem tão perto dos Correios. Dona Flora conseguiu, com dificuldade, chegar até Camilo e dar a notícia. Lívido, ele se atirou no meio do que descrevia como "horda de jovens comunistas e agitadores". Voltou meia hora depois suado, descabelado e sozinho, desejando exterminar cada estudante idealista da face da terra. Talvez com o mesmo propósito foi chegando a tropa de choque da polícia militar. A tensão cresceu entre os manifestantes. Um tal de Catarina instigava a multidão ao enfrentamento com os PMs. O vento da morte recente de um estudante no Rio de Janeiro começou a soprar na Praça Ramos. Dona Flora enfiou a mão dentro da bolsa, onde sempre carregava seu terço, e começou a rezar. Camilo, exausto, sentou-se nas escadas do prédio dos Correios e desabou em pranto. Quase 15 minutos mais durou a sua tortura até que Ana Célia surgisse ao lado de um jovem magro e alto que a devolveu sã e salva para os braços do pai. A felicidade de revê-la só não foi maior porque o rapaz a trouxe protegida sobre seu braço; e porque Ana Célia tinha o rosto iluminado e uma expressão nunca vista; mas definitivamente porque ela, mesmo abraçada ao pai, só tirou os olhos do rapaz quando ele desapareceu novamente no meio da multidão.

Nada mais de idas ao Centro, Camilo sentenciou. A vida de Ana Célia restringiu-se à casa e ao colégio. Nem mais passeios com as amigas pelo bairro. Nada de banco separado na hora da missa. Para a menina só restou o telefone. Até aquele dia e aquela ligação onde o tal "José" entrou em suas vidas. Agora também estava proibida de atender o aparelho.

A verdade é que enquanto Ana Célia florescia, Camilo definhava. Passou a ligar mais vezes para a casa e se topava com o telefone ocupado tinha crises imediatas de colite. Seu cérebro então maquinava compulsivamente uma história onde Dona Flora dormia, ou se distraía, e o telefone tocava, Ana Célia atendia e era ele... o tal José. E como nada demovesse Camilo da idéia de que "o tal José" era o mesmo rapaz da passeata, começou a acompanhar obsessivamente as notícias nos jornais sobre os conflitos entre a polícia e os estudantes. Vasculhava as fotos em busca daquele rosto impossível de esquecer. Enquanto isto, vários Josés se batiam contra a polícia e eram mortos pelo país nos conflitos contra a ditadura.

Ana Célia tudo negava. Não conhecia nenhum José. Sobre o que havia acontecido naquela eternidade em que ficara desaparecida no meio da passeata, falava coisas sem sentido. Desorientara-se. Fora apanhada por uma onda de gente e arrastada para o meio do tumulto. O rapaz? Não sabia nada dele. Seu telefone? Não dera a ninguém, é claro que não! Mas Camilo insistia, chegava a lembrar de ter visto o rapaz acenar para ela com um papelzinho. Dona Flora negava. O rapaz sequer havia olhado para trás. Mas os olhos de Ana Célia é que importavam... e eles sorriam lá dentro. Eles estavam diferentes.

No meio daquela passeata, a verdade é que Ana Célia se sentiu, pela primeira vez, integralmente feliz. Ia sem destino levada pelos corpos cheios de eletricidade numa onda que mudava de direção sempre que esbarrava no cerco da polícia. As palavras de ordem criavam uma estranha densidade no ar. Como se fossem sólidas, elas faziam cócegas no ouvido. Um frio subia pela barriga e ao invés de assustar o coração só fazia querer ir mais à frente. Nem notou de imediato o momento em que aquele rapaz segurou no seu ombro. Apoiou-se nele reflexivamente. Só quando a tensão aumentou e surgiram vozes instigando ao confronto com os soldados, foi que Ana Célia acordou do transe. O rapaz anônimo tornou-se a única fonte de segurança. Abraçou-se a ele com mais força. Olhou, finalmente, o seu rosto. Não era bonito, ou talvez fosse, mas carregava uma fisionomia grave, de homem muito mais velho do que era. A massa de corpos estava cada vez mais compacta como se fosse pressionada por todos os lados. - Vou tirar você daqui - Ele disse. - Me leva até os Correios? - Ela disse. Ele riu. - Levo. - Dali até os Correios havia uma distância imensurável coberta de gente. O rapaz apertou Ana Célia contra o seu peito e foi abrindo caminho no meio da multidão. Estavam bem próximos dos Correios e já fora do tumulto quando ele parou e perguntou o seu nome. - Ana Célia.... - José. - Ele disse e deu-lhe um beijo. Na boca. O primeiro. Assim do nada, como se beijar fosse parte daquilo tudo... E ela, que até então só havia beijado o espelho, descobriu que os beijos eram molhados e quentes... O coração veio à boca. Ficou tão confusa que chegava a duvidar de ter lhe dado seu telefone. Mas dera sim, apavoradamente, sem saber se eram mesmo os números certos. Depois esperou iluminada todos os dias por aquele telefonema. Mas agora o pai, pela primeira vez, colocava-se entre ela e o seu desejo.

Outra vez o telefone tocou e ela sentiu um frio na barriga como uma premonição. Correu até a sala e viu a mãe levantando o fone do gancho. - Quem quer falar com ela? - Perguntou Dona Flora, medindo a filha com os olhos. - Neide? Do Colégio?... - Ana Célia abriu um sorriso, não conhecia nenhuma Neide. - É a Neide, mamãe!! - Dona Flora sentia pena do isolamento da menina e deixou-se seduzir por aquele sorriso pedinte. Depois, que mal havia em falar com uma colega de escola? Entregou-lhe o telefone e voltou para a frente da televisão. Ana Célia custou a acreditar quando passaram o telefone para ele, estava na rua, devia ser um telefone público, ouvia-se gargalhadas de jovens e até música de violão. - É o José, lembra? - É claro Neide! - Queria te ver de novo... - É que.. - Onde você mora? - Rua das Figueiras, casa 7... mas é que... - Eu sei, o seu pai... - Pois é. - As duas horas da manhã, estou na porta! - Heim??? - Duas horas da manhã, broto... - E desligou.

Na Zona Leste, às duas horas da manhã daquele dia de maio só os gatos davam sinal de vida. Ana Célia girou a chave da porta com cuidado e saiu para o corredor escuro que dava na rua. O velho portão de ferro era a última barreira a ser vencida. Felizmente, o pai nunca se descuidava de lubrificar as juntas do portão e ele não fazia muito barulho. Um leve rangido e ela estava livre. Encontrou José sentado no meio-fio, bem diante da janela do quarto de Dona Flora. Com o dedo encostado à boca, pediu que ele a seguisse. Andaram algumas quadras, mas Ana Célia não quis afastar-se muito da casa. Sentia novamente aquele medo estranho imbricado de prazer. José segurou-lhe as duas mãos e olhou para ela da ponta do sapato até a ponta da fita no rabo de cavalo. Parecia que os seus olhos iam construindo nela um outro corpo. Garoava. Ele tirou sua capa cinza e jogou sobre os ombros dela. José era muito diferente de tudo que conhecia, talvez porque já tivesse 20 anos e isto para as meninas de 16 é quase uma eternidade. Falaram pouco e ela, mais por não saber o que dizer do que por consciência ou medo, perguntou se ele era comunista. José sorriu novamente como naquele dia da passeata. - O que é ser comunista? - Perguntou. - Eu não gosto de comunista. - Ela disse. - Tudo bem, então eu não sou comunista. - Ele arrematou antes de puxá-la para si. Outro beijo e outro e outro.... E apesar de ter saído sorrateiramente de casa e estar de madrugada na rua abraçada a um estranho, Ana Célia sentia-se maior do que antes. Passou-se outro degrau da vida e ela já não era mais a menina do porta-retratos sobre a mesa de Camilo. Quando José a deixou de novo em frente ao portão, seu cabelo havia se soltado e caía de uma forma displicente na frente do rosto. A fita se perdera. Ela voltou para dentro da casa e ficou durante horas deitada em sua cama sentindo espalhar-se pelo corpo, como uma droga, a revolução irrefreável do amadurecimento.

Outras madrugadas se viram e apesar das olheiras fundas, Camilo não desconfiou de nada. José explicou-lhe o comunismo e falou de Marx e da luta de classes. Ana Célia, apesar de entender pouco, encantava-se com a expressão iluminada de José sempre que ele falava dos estudantes franceses e da grande greve dos trabalhadores em Paris. Aprendeu a odiar a ditadura e a amar a liberdade porque a liberdade eram os beijos dele nas horas vivas da madrugada. Ganhou um poema de Brecht que carregava consigo escondido entre as páginas do caderno: "Aquele que amo disse-me que precisa de mim, por isso cuido de mim, olho o meu caminho, e receio ser morta por uma só gota de chuva.". Os comunistas, quem diria! falavam de amor.

Meses depois, Camilo estava irreconhecível. Sentia a filha distante, indiferente aos seus agrados e sofria. Convidou-a ao Teatro Municipal para assistirem a Orquestra Sinfônica. Não quis. Nunca mais ouviu a boca de Ana Célia chamar-lhe "paizinho". Estava arredia, nervosa, jantava rapidamente e pedia para deixar a mesa. Corria então para o seu quarto e às 8 horas da noite já estava dormindo. Durante o dia parecia cansada e ao invés de rebelar-se contra a prisão domiciliar que lhe fora imposta, auto-trancafiava-se em seu quarto, só abrindo a porta depois de alguma insistência da mãe. Se atendia às ligações do pai, respondia-lhe monosilabicamente e sem nenhuma ênfase. Camilo, atingido pelo desprezo, esquecia-se de fazer a barba, que por natureza crescia cheia de falhas, e gastava menos gumex com o cabelo do que era preciso. Todos os dias uma ou outra ponta dura de cabelo mal engomado se espetava para o céu. Nos Correios já comentavam o seu estado de desligamento geral do trabalho. Passava horas encarado no aparelho telefônico como se fosse a própria esfinge de Gizé ou recortando matérias de jornal que falavam da peleja entre a ditadura e o movimento estudantil. Os amigos alertaram Dona Flora de que o marido estava prestes a perder o emprego e ela então se viu forçada a agir. Primeiro tentou convencer Camilo de que as mudanças de Ana Célia eram coisas da idade e que era normal na pré-adolescência aquele afastamento. Ele, porém, voltava à mesma tecla: os olhos... os olhos dela... Dona Flora também notara aquela profundidade que de repente e do nada acomete os olhos apaixonados. Mas negou exaustivamente, sabendo que o marido não suportaria. E, desesperada por não convencê-lo, teve a idéia infeliz que pareceu-lhe a solução definitiva para o dilema. Mandariam Ana Célia a um semi-internato de freiras católicas, com turmas só de meninas, de onde ela só pudesse sair aos finais de semana, assim, se estivesse de namorico com algum rapaz na escola, ou mesmo se fosse vítima de alguma paixão adolescente, estaria protegida e acabaria esquecendo. O pai a visitaria quando quisesse e assim poderiam guardá-la novamente na redoma. Camilo iluminou-se, endireitou a espinha que há muito vivia curvada pela tristeza. A angústia de perdê-la deixaria de comer-lhe o fundo do umbigo. Pelo menos até o fim do ginásio e isto já era mais de um ano em paz. Descobriu ele mesmo a instituição: fora de São Paulo para deixá-lo tranqüilo mas não muito longe para que ele pudesse fazer-lhe visitas rápidas no meio da semana. Providenciou a transferência da escola que Ana Célia freqüentava e deixou tudo engatilhado para o segundo semestre do ano letivo. A menina sequer imaginava seu destino. Dentro dela, cada vez mais, os sonhos de liberdade abriam novos espaços. E na noite em que Camilo nada via, ela vivia a revolução que traz as mulheres para este mundo.

Junho de 1968: na Argentina e na Colômbia, estudantes param contra a política educacional do país, no Uruguai, o governo decreta Estado de Sítio após violentos choques de estudantes e operários com a polícia, na Iugoslávia, estudantes ameaçam ocupar as universidades, na França as últimas barricadas são erguidas no Quartier Latin e no Brasil, a Passeata dos 100 mil, reúne estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães contra o Governo. O senhor Camilo Bastos de Oliveira chama sua filha à sala da casa. É um domingo frio e cinza em São Paulo. Ana Célia está pronta para ir à igreja e, à pedido do pai, veste seu vestido azul. Algo estranho vai acontecer pois sua mãe se recusa a olhar para ela e parece até ter os olhos marejados. Camilo pede que ela se sente na poltrona e dá-lhe a notícia do semi-internato. O faz com ares de quem pratica uma boa ação e um olhar de superioridade divina e onipotente. Ana Célia fica alguns segundos inerte, incrédula. O pai repete a sentença. Daqui em diante passará as semanas fechada, exilada, longe da mãe, dos amigos, mas principalmente de José. Ela busca socorrer-se nos olhos de Dona Flora mas nem agora os encontra. Não haverá conversa sobre o assunto, é só um comunicado, nada mais. Nem chorar convulsivamente adianta, nem correr para o quarto e estraçalhar com a tesoura a saia do vestido azul. É o que ela faz. Inútil. Em menos de um mês estará internada no colégio de freiras onde o mundo sem fronteiras que ela agora carrega dentro de si, não caberá. E além disto, deve vestir outro vestido e ir à missa com os pais. O vestido rasgado, ela terá de costurá-lo completamente quando voltarem. Grita que não irá a missa nenhuma, está possuída. Camilo abre o guarda-roupa e procura-lhe um novo vestido. Grita outra vez, só que agora contra Deus que, neste momento, ela acaba de descobrir que não existe. Camilo não reconhece mais sua menina. Berrando louca no meio do quarto está uma mulher que não é sua. Quem tocou as penas do seu anjo? Quem tirou de sua boneca de louça a brancura fria e meiga e sua? Tenta conter Ana Célia segurando-lhe os pulsos, na verdade quer abraçá-la, mas o seu contato para ela é insuportável. Ana Célia desvencilha-se dele e corre para a rua. A rapidez da juventude, empurrada pelo desespero do coração, levam-na para longe da casa, longe do bairro, longe do alcance de Camilo. É domingo, anoitece, e Ana Célia corre chorando por uma avenida, dentro de um vestido azul rasgado, para lugar nenhum.

Quando amanheceu, na segunda-feira, Camilo debruçava-se desesperado sobre a mesa do delegado da 15ª D.P. que repetia, no limite da paciência, que todas as viaturas haviam sido notificadas e logo teriam notícias da menina. Um meliante chegou arrastado por dois policiais e tomou conta da cena. Camilo foi conduzido por um investigador, sem nenhuma delicadeza, à sala de espera onde Dona Flora rezava agarrada ao seu terço. Ali passou as últimas horas em que a sua vida teve sentido.

Ana Célia andou por toda a madrugada sem rumo. Não tinha como achar José, que para despistar a polícia vivia sempre clandestino, escondido na casa de amigos. Foi parar no Centro da cidade onde, na madrugada, circulam bêbados, mendigos e putas. Talvez por força do hábito, acabou nas escadas dos Correios e ali passou a noite sentada, sentindo frio, medo e um peso estranho no corpo, principalmente na cabeça onde o cérebro parecia uma esponja encharcada. Subitamente havia compreendido seu cárcere: o pai não permitiria nunca que ela o deixasse. Conhecia Camilo como conhecia a si mesma. Mais cedo ou mais tarde voltaria para casa e ele não teria alterado uma linha na sua decisão. Ou estaria pior e certamente fecharia o cerco ao redor dela. Contar sobre José seria catastrófico. Fugir com ele e deixar o pai? Não conseguiria. Desde que se entendia por gente, tinha os olhos de Camilo sobre si, eram parte do seu mundo, quase uma extensão dela própria. Estava presa a ele por um sentimento confuso de ódio e gratidão. Começou a sentir uma dor que parecia vir das costas e refletir-se na barriga. A dor foi crescendo e com ela uma angustia e uma raiva do pai que nunca havia sentido. Queria desvencilhar-se dele mais uma vez e definitivamente. Romper aquele vínculo, ser livre. Impossível. E esta dor? Fome talvez. Levantou-se confusa e caminhou até o Viaduto do Chá. Apoiou as mãos no corrimão de ferro e olhou a avenida lá embaixo, ainda vazia. Levantou um pouco o olhar para localizar a janela da sala do pai no prédio dos Correios. Um pequeno salto e estava sentada sobre a murada do viaduto. Jogou as pernas para fora da ponte e ficou imóvel olhando o asfalto da avenida. Fechou os olhos e sentiu que Camilo, atrás de sua janela, olhava fixo para ela. Ergueu os dois braços no ar. Só o vento fraco tentava devolvê-la para dentro do viaduto. Foi tombando lentamente para frente, para o vácuo sem amarras. Descolou-se do Viaduto do Chá. E caiu.

Camilo Bastos de Oliveira, nunca mais voltou à sua sala na Agência Central dos Correios e Telégrafos de São Paulo. Nem cruzou outra vez o Viaduto do Chá. Depois de uma infinidade de licenças médicas, foi mandado a uma pequena agência do interior com uma função de pouca responsabilidade. Dona Flora ganhou mais 7 quilos. José morreu em outubro num conflito com estudantes do Comando de Caça aos Comunistas e, em 13 de dezembro, o General Costa e Silva suprimiu todas as liberdades democráticas no Brasil.

jun/98

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